terça-feira, 1 de novembro de 2011

Ímpeto melancólico

Roubam-me tempos,
escrevem-se destinos,
e a vida rompe estrelas
colhendo lágrimas.
Entre vazios, rodeiam canções póstumas
que me bastariam por
um silêncio.
Sou resina e pó,
faço-me insano e obsoleto.
Tenho a mim vestígios que
não me convencem.
Flores entranham na palavra
mais cinzenta,
cortejando a maciez
de meus delírios.
Por fim,
aprecio a solidão pelas esquinas
que me conduzam ao resto:
as cortinas íntimas da criação.


(setembro 2011)

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Felizes flores

A quatro mãos com Aldinha Santos





Felicidade canta flores,
desabrochar de primavera.
Suave brisa ao contentar teu beijo.
Encantamento refletido em mar
tocando meu corpo,
sentindo tua alma entranhar
meu verso mais contido.
Pelos olhos, beleza íntima
espalha-se em desejo.
Sonho tocar-te estrela,
tomando tua pele
essência breve de mim.
Teus raios sussurram amanhecer
sorrindo a poesia que exala
em meus ouvidos.


Felicidade canta flores,
desenhando cada passo
dos segundos que regem
minha existência.





(março 2011)

Hoje

Hoje é tempo,
presente,
argumento,
história dispersa
em andamento.
Injúria triste
do esquecimento.
Hoje me pertubo
ou atrevo-me
num prenúncio de horas
seduzidas em gotas
de ilusões,
realidades.
É meu alento
como um passado
renegado ao resto
(morto, sublime)
pelo hostil relento.





(abril 2006)


Contemplação

O silêncio sinfônico das brisas
reverencia o espetáculo da vida.
E da calmaria em sóis de veludo
revela-se a gratidão do mar.
Um templo em azul decora pássaros,
exibe a harmonia do tempo,
cinge a simplicidade das flores
em pequenos espelhos de prata.
É o aroma vindo dos grãos de mundo
espalhados em cantigas de roda,
no suave brilho surgido nos olhos
fartos sos campos,
na brevidade eterna dos sonhos
que libertam sensações findas.
Sentimentos vagam por beiras e ruas
escalando cinzas de concreto:
querem falar de amores.
Os amores exalados nos cílios da natureza.
Os amores escondidos nas frestas
de mentes humanas.
São apenas os amores que desvendam
o espetáculo da vida,
visitam a sinfonia ínfima das brisas
e fazem da serendade das almas
a contemplação de apenas ser.
Tão somente ser.


(maio 2008)

De lágrimas e sonhos

Chore rosas tuas
abertas em sonhos
que comovem estrelas,
rastreiam ventos,
conservam o que há
de tão menina
em tuas horas.
Cante fartos desejos,
pois deles se escrevem
as linhas mestras
de cada vã ternura.
A vida tende a brevidade.
O eterno sobrevive ao corpo.
Todas as crenças são esperas.
E as rosas renascem em
tua lágrima e sonham.
Simplesmente sonham...


(agosto 2011)

segunda-feira, 18 de julho de 2011

A peleja entre um poeta aflito e o Pensamento

A quatro mãos com Cesar Tadeu Lopes






Um dia, veio-me o Pensamento:
- Morra por alguns minutos
e atenue tua angústia.
Se for de teu agrado,
verás alívio e frescor.
Daí, argumentei que dormir
seria morrer em vida,
alheio ao mecânico do real.
Após um certo tempo,
voltou-me o Pensamento,
com ares de vitória
e pretensões inquietas.
Certo de que me convenceria,
brotou até mim com
alguma soberba, insano:
- O sono é apenas um
sopro momentâneo!
Por qual motivo queres sonhar
se terás a certeza que virá o depois.
Na morte não existe o depois
e sim, o escuro recomeço.
Concordei com o Pensamento
acrescentando, humilde
que contra a angústia
não era necessário refletir.
Deste modo, eu abriria
os olhos tristes da depressão
e de meu nojo do mundo.
O Pensamento sorriu-me estranho
e ordenou, debochadamente:
- Então acabe com tua lástima,
dê vida a tua morte!
Por que não contemplar tal desejo?
Respondi, irônico e melancólico:
- Não sei o que há do outro lado
e é exatamente aí
que reside toda minha
Angústia.



(julho 2006)

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Década

O tempo condiciona a novidade.
Como crianças,
brincamos astros como roseiras
e extravasamos.
A vida nos permite inflarmos,
mornamente,
sobre brisas tolas que renascem
e morrem distantes.
Nossos instintos se ampliam,
novas estradas são desenhadas.
Rotinas medonhas assim desabrocham
entre bocas e esperanças.
A novidade restringe o tempo.
Como adultos,
racionalizamos sonhos em meras
esquinas.
Um ciclo sobrevive por nossas
mãos
e uma fagulha de lembrança
ainda resiste no cruel embate
de décadas adormecidas.



(julho 2011)

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