sábado, 7 de março de 2015

Avenida das ilusões

Para meu pai, José Aldo Gomes Mendes
-E aí? Tá gostando?
Era a pergunta que girava pelos
corredores de sua existência.
Era em seu pensamento que se
remendavam os restilhos de areia,
todos esquecidos nos lamentos
firmes dos calcanhares.
Andava guiado por rastros pontilhados
na raiz de cada memória.
Pois dançou e cantou e sofreu.
E lutou, gargalhou e gemeu.
Viveu o que bem podia.
O que não podia também amou.
Irradiava as incertezas nos olhares
de criaturas humanas ao redor e
assim fincava as flores de sua
angústia numa intensa avenida,
regada pelas lágrimas abandonadas
no caminho,
construída no suor das conquistas
enlouquecidas pelo tempo.
Argumentos recortavam o cansaço
úmido das ilusões.
Paixões se calam rapidamente num
estalar pálido de dedos.
Era a avenida estreitando-se ao
apagar lógico das luzes.
Era a pergunta que girava pelos
corredores de sua existência:
-E aí? Tá gostando?

(janeiro 2008)

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