sábado, 7 de março de 2015

Sofá

onde tudo começou...
O sol queima minhas ideias. Ao longe vejo o mar, mas isso
não me conforta. A fome que sinto não importa mais, já que
a imagem daquela mulher insiste em duplicar na minha
mente. As minhas mãos estão atadas, atravancando meus
sonhos.
Continuo só, como um artista apreciando sua obra. Sou
apenas um sofá.
(18 de agosto de 2005)

O abismo

Flutuo como uma pluma
bêbada brindando o acaso.
Eu mergulho insano sobre as
mesas fartas do destino.
A esperança cardíaca que
pulsava em minhas tripas
foi roubada pela estupidez
do vento, que brisa inútil
por minha alma estrangulada.
Viajo sem força pela natureza
morta e enterrada sem piedade
em um momento incrédulo
que ostenta um cheiro forte
de escuro pelo meu espaço.
E meus tímpanos explodem
diante de um uivo
mudo e volátil, consumindo
o medo covarde que insiste
em sobreviver.
A viagem agoniza em lágrimas
derradeiras anunciando o fim,
recusando os tristes resquícios
do pouco que restou de mim.
E então, tudo se acaba solenemente
num assombroso e deprimente
abismo.

(setembro 2006)

Avenida das ilusões

Para meu pai, José Aldo Gomes Mendes
-E aí? Tá gostando?
Era a pergunta que girava pelos
corredores de sua existência.
Era em seu pensamento que se
remendavam os restilhos de areia,
todos esquecidos nos lamentos
firmes dos calcanhares.
Andava guiado por rastros pontilhados
na raiz de cada memória.
Pois dançou e cantou e sofreu.
E lutou, gargalhou e gemeu.
Viveu o que bem podia.
O que não podia também amou.
Irradiava as incertezas nos olhares
de criaturas humanas ao redor e
assim fincava as flores de sua
angústia numa intensa avenida,
regada pelas lágrimas abandonadas
no caminho,
construída no suor das conquistas
enlouquecidas pelo tempo.
Argumentos recortavam o cansaço
úmido das ilusões.
Paixões se calam rapidamente num
estalar pálido de dedos.
Era a avenida estreitando-se ao
apagar lógico das luzes.
Era a pergunta que girava pelos
corredores de sua existência:
-E aí? Tá gostando?

(janeiro 2008)

O bailado

Melodia voa pássaros meu vento
Pensamento em lira pousa flores
delírios tenros de aço
vão em mim gota a música
estrondo e palavra.

Vales de um bailado vivem a letra.
Amores solfejam o sal da noite.
Almas de bom grado
lágrimas redesenhadas,
sombras esparsas vagando estrelas
estalam um canto
afagam o canto.

Canta desejo em mim pequena música
harmonia e palavra.
(abril 2009)

Criação


na E.M. Capitão de Fragata Didier Barbosa Vianna
Num instante empoeirado,
livros, mesas e motores surdos
apreciam o genioso cantar
do silêncio.
Enquanto isso nascem palavras
vadias de minhas mãos
e inquietos sonhos acontecem nas
esquinas dos dicionários.
Papéis sobrevoam a imaginação
das pedras.
Meus olhos contam impublicáveis
artigos em quintais sonolentos.
Paredes insólitas desejam enfim
degustar paisagens.
Por um lapso, escrevo ternuras
que só o vazio se faz entender.
Acabo de criar um poema tolo
no estômago indizível
daquela tarde.
(março 2010)

Ego et omnia

a Bárbara Barreiros Cruz
Meu maior desafio sou eu.
Sou meus olhos, o outro, meu todo.
O tudo é apenas um grão de mim
do nada que maquia o mundo,
dos infinitos de meu infinito:
o passeio por minha existência.
Sou passageiro dos meus sonhos,
o meu vício coberto de neve.
Seu gelo me convida à sorte
como algo que revela a morte
em pedaços embevecidos de nuvens
coloridos em preto, branco e cinza.
A sombra tão clara me corteja
e de tão completo sou ave e solidão.
Festa, fogo e estranha amplidão
de um razoável pecado de felicidade
que flecha perene por minha existência.
E assim me torno ausente
no meu avesso que nasce em mim,
de um rio que me renova por inteiro
numa importância que flutua breve
pelo fantástico vazio do grande
desafio que sou eu.
(setembro 2006)

Uma outra ausência

Ausência é afastamento,
o não-comparecimento,
é a falta.
A falta que preenche
o vazio,
que completa a lacuna fria
do simples existir.
A ausência é melancolia,
a loucura doce
da mera saudade,
como a tez da inverdade
que se multiplica em
epidemia... É ausência,
presença viva do nada
lembrança pura e ilustrada
no tudo que sinto falta.
Ausência é sentir falta.
A falta que nunca existiu.
(março 2006)

Bar poema

Beber o prazer
um gosto
um toque.
Bares silenciam
a noite
a vida
bebida em goles
grandes
leves.
Vai a gota
o som
o passo.
Vem a onda
copo
o doce
tem seu aço
a cerva
o tempo.
Bares apreciam
o berço
sonho.
Ganha o prazer
a lua
o prêmio.
(novembro 2009)

Poema da desilusão

Eu ouço vazios secos explodirem em meu sangue.
O peito se rompe: era ela!
Ao pesar da noite, dois corpos em álcool e êxtase
rasgam-se com os olhos.
Eles suam, ardem, brisam.
Meus ossos tremem.
Dois universos em transe, como por um repente
embrulham seus lábios
e se divertem
e se orgasmam,
trocam sabores íntimos.
Eu não sentia mais a brevidade da música
pulsar em meus ouvidos.
Era um casal liberto,
um casal infinito.
Apenas dois num só brilho.
Minha noite fria se rende e dorme.
Ela era a mulher que eu amava.
Ele não era eu...
(março 2007)

Versos de ternura num fim de tarde

O dia fecha os olhos.
Conta passantes
requintes de brisa.
Um templo de sol
cada vez mais sol
invade meu tempo
respira de súbito as ruas.
Florescem mãos, estrelas
silêncio sem pressa
fascínio nos lábios.
Roseiras de mundo
decifrando a vida.
Cortinas de lua
dispersando a tarde.
Momento de luz
beija longe a alma
lavra a tua pele.
Um templo de sol
cada vez mais céu
sossega o horizonte,
deixa gotas de noite
espalhadas num perfume
(inquieto, delicado)
que insiste não querer dormir
raio e ternura.
(novembro 2008)

O segundo surto

O princípio:
precipício de mim
ausente em mim
fogo em alma
que cala o silêncio
de dentro, por dentro
roçando em meus dedos
urrando em meus olhos.
Sou eu... O cinza
se projeta em branco
perdido em branco
e tanto e louco
e pouco e santo
um lobo faminto e vadio
na profusão do cio
sou eu
sou meu
sou formato informe
produto em minuto
um sopro, um surto
precipício do fim.
(maio 2006)

A cidade da tua vida

Entrei pela cidade de tua vida
e lá percebi devaneios nas calçadas,
nas praças e nas conversas de ventos.
Senti teus perfumes convidando-me
para o acolhedor ventre dos jardins.
Tinha o primor do encanto
emaranhando ares e arredores.
A tua poética decorava os contornos
do meu pensamento,
enquanto eu passeava caudalosamente
pelas ruas e estradas de tua alma.
Meu coração ritmava na exatidão
da ternura inspirada pela esperança
que brotava naquele lugar.
Eu marejava meu corpo com
as águas dóceis dos rios, que teimavam
refletir a brandura de teu rosto
em todo percurso.
E eu continuava a caminhar, regido
pelo banhar do sol que me acarinhava
por aquelas terras tão fêmeas.
Me vi espalhado em teus braços,
observei meu retrato retinado
em teus olhos e rasguei minha voz
na altitude de tua boca.
Eu contemplava a magia da paisagem
e já não importava mais dizer adeus.
Queria ficar, me reconhecer, me recriar
dia após dia
nas vidas de tua cidade.
E por todas as imensidões do sempre,
queria que esta fosse a cidade
de minha vida.
(agosto 2007)

Monjolos

Vestes de baralho,
calmaria triste no
rondar da praça.
Rezas, gritos e
homens de brasa
moldando o tempo.
O jogo é o prazer
do vento que esbarra
a loucura.
As cartas são redenção
do silêncio que neblina
a noite.
A rua então se rende ao
conflito de vontades,
resumidos em bancos
de cimento e vidas.
É a calmaria triste
da praça, respirando
o tédio mórbido dos
deuses.
Sem complicações...
(março 2008)

Soneto do estranho amor

Em cada porto hei de respirar
O teu perfume insone, estranha flor.
Raiz de mim, o vento, meu temor
Do sussurro que adula o frio mar.

Em todo sonho hei de oferecer
Os teus passos em lastros de euforia.
Espinhos de um sim que me existiria
Como dor velada ao pesar do ser.

Meu sempre rompe-se por um instante
Nas curvas exatas de meu espaço
Ao teu destino que me faz distante.

E torna a chuva esparsa num pedaço
De um encanto que me grita delirante.
Estranha flor: em amor me desfaço.
(maio 2006)

A confissão das horas

Inquiete o cantar do coração:
devassos são os dias.
Ponteiros dissolvem o tempo.
Virão em olhos teus constelações
a pulsar angústia densa tua lágrima.
Devore sonhos, mares pelos dedos
devotados do luar final ferido
esperar; nascer morrer fiel desejo.
Vozes brincam respirando solitude
em lírios brancos
nas folhas de artifício
por verdades insolúveis.
Segundos ensinam a fartura do mundo
cruel espaço vida em carne e fogo
queimam da garganta um vento oco
e carregam do destino teus pecados.
Estremeça o ranger da alvorada:
armadas são as horas.
E dizem da janela de teu ser
um espectro
um silêncio
um afago estampado nas paredes
de cada verso.
Felicidade que se entrelaça na
doçura breve de uma flauta.
(janeiro 2009)

A indescritível premissa de um livro

Abre-se a história.

Gaivotas desenham o céu.
Ventos deliram folhas.
Homens-relógio redescobrem
o mundo.

Carros buzinam vozes.
Cães farejam a lua.
Ruas ladrilham passos.

Liberdades constroem o rosto.
Muros beliscam ondas.
Letras inventam vidas e
mais vidas.

Entre páginas, quintais de cores
modelam estômagos,
desfazem a ordenha das pedras,
remontam calçadas ao fervor
da noite.

Capítulos espiam.
Imaginações explodem.
Na contracapa, esperança.

E fecha-se a história.
(setembro 2008)

O cataclisma

Ao amigo Diego Dantas
Tintas e tranças entrelaçadas:
poeta diz não ser.
Alma tempestade cor de vento
claro enigma de vozes
no véu perverso
de lentes nubladas.

Detrás de sensações, lentes nubladas:
poeta diz não ser.
Sombra de si mesmo renascido
inventa sementes
corrói festejos de cinza
na carne da língua, delírio.

Delírio face a carne e língua:
poeta diz não ser.
Engole letra densidade e vida
a rabiscar montanhas
contornos de azul e vulto
chovem esquinas, coração de lua.

O poeta explode:
agora ele é.
Trovoada de mundo exala o verbo
diz poema.
Brota das próprias mãos cataclisma.
A ordem mais perfeita está completa:
nasceu poesia.
(maio 2009)

Poema passarinho

Meu sonho brinca o horizonte
e o cinzel do meu canto
rasga o mundo em sensações
ardentes por todo meu recanto.
Eu passarinho o colorido azul
da paisagem em meus olhos
ríspidos e brilhantes,
trôpegos e delirantes
tão famintos, tão soltos... livres
em asas imensas
despidas de penas,
repletas de almas
ansiosas que bailam, bailam
e dançam repentinamente pelo infinito.
Eu passarinho a vida longa
em caminhos onde as setas
predadores e minha dores
me esperam aflitos e desejosos.
Mas eu, tão passarinho,
hiberno voando e criando
ninhos cheirando liberdade
do tamanho de minhas asas
do tamanho do meu sonho,
do tamanho do meu eu.
E assim, bem como poesia o mestre,
eu apenas passarinho...
(setembro 2006)

Memorial

A vida,
que caberia no meu bolso
em um lapso,
é um museu desbotado
de delírio.
Evoca minha infância de
discretas travessuras.
Desbrava a adolescência
de amores que não tive.
Enlaça palavras no sepulcro
tenso de minha memória.
Debaixo de olhos bem atentos,
solidões brindam o sonhado
desencanto do mundo.
Ilusões choram a grande espera
indivisível do tempo.
A vida,
que restaria nos meus dedos
em deserto,
é um pedaço amargurado
de lembrança.
A insensata lembrança que
desata a ferida incrédula
da eternidade.
(agosto 2008)

Indigestão

Arde a manhã.
Fornadas espetam
o primeiro raiar.
Eis o pão,
alimento vivo
para formigas
humanas.
O café amargo invade
entre olhares, vidas,
sonhos e sonhos,
o orvalho doce e
indolor das incertezas.
Pois o dia ferve
e o dia pede pão.
Por silêncios e
sobrevivências,
corre o velho tempo
avesso às conversas,
que depressa se
esconde pelas frestas
das tristes bocas
de mármore.
Morre então a manhã
numa congestão de
pensamentos que se
perdem nos balcões
da padaria.
(janeiro 2007)

O velho


Anoiteceu. Tudo parece denso.
A intensidade é pesada.
Ao caminhar, folhas secas e fúnebres.
Barulho tão estarrecedor
que estala meus tímpanos
e resvala na ausência que se prenuncia.
O horror mambembe está estampado
no cinza pálido da paisagem.
Surge um passado carregado
de um ar rarefeito e medíocre,
que teima em visitar meu corpo
trêmulo e frágil, meu delírio.
É a noite o medo concretizado,
o extenso mórbido da vida
como o ranger de dentes
como o vazio da antítese
como a presença do nada.
É tudo tão velho, senil...
Parece já ter visto estes olhos antes.
(março 2006)

Cirandas

Resplandecem as praças
que clamam pelos versos.
Universos confundem-se
nas línguas mais sórdidas.
Letras em cirandas
acomodam-se aos bancos,
inundando assim a chuva
que espreita os amores.
Teimoso, vem o grito enlouquecido
das musas
acendendo o vício enobrecido
dessas praças
de tecer, alma por alma,
a grande horda de poetas
nas canções em vida
que embalam cores,
infinitos e recantos
da mais bela forma
de desbravar auroras:
-Um brinde à majestade poesia!
(setembro 2007)

Estudos de amor bem vindo

O amor vem vindo
com olhos cinzas de espanto.
Beija o rosto de meninas enternecidas
e de homens ressabiados.
Vem vindo o amor
dos bordéis loucos em brasa
das flores encantadas num alento
das histórias mal contadas por vida.
O amor chega
como som atômico de gaivotas
envaidecendo sonhos
como música adormecida em brisas,
temporal de mares
como simplesmente único insensato
amor.
Amantes trocam carícias e lábios
no entardecer das ruas.
Prédios incessantes estendem mãos
frias de concreto.
Carros gorjeiam a surdez dum
instante desvairado.
O amor toca meu corpo
se valendo pela voz do rio,
reticente raio,
ressonante estrada deslumbrada
dum pequeno céu.
É que o amor vem vindo...
(março 2010)

A psicologia dos olhos

A periferia das almas
está nua, está crua
esperando os olhos
que piscinam o alvo.
É a flor
que rodeia o tempo
reinventado pela vida.
Outra flor
vagando pelo vento
sob graça destemida.
É a dor,
pois as almas invadem
a mente e enganam
mistérios por
plumas invisíveis,
viajantes.
Ocultam assim os sonhos
que deliram, reviram
os mundos através de
toda psicologia refinada
dos teus olhos.
(novembro 2006)

Forma e fôrma

Cada gota que desperta a palavra
é minha forma.
Todos os cantos de infinitos que me
cercam aglutinam pensamentos.
Sinto fome do atrevimento, da gravidade
que inflama nos versos do mundo.
Sou reflexo do ardor que zomba
do meu ínfimo espaço
ao nascer como manhã ávida pelas
imensidões de sentimentos bravios.
Sou meu tempo escorrendo em minha testa,
nas arestas de vastos jardins
e nas ilusões mal resolvidas.
O fragor do meu limite é somente
a plenitude de adornar um gesto
ao gosto da vida
por cada gota de palavra
que cativa minha forma.
E a fôrma? Onde habita?
Está apenas como um circunflexo velho
guardado num obscuro fundo
de uma triste e esquecida gaveta.
(julho 2007)

Infeliz aniversário

Não quero ser mais refém do querido
meu tempo.
Não quero me felicitar pelos tantos
porres de vida.
Não preciso da festa nefasta e hipócrita
das gerações necrosas.
Tenho nojo das reflexões esbugalhadas
de tudo que não fiz.
As mágoas desafogam num viver,
meu nosso viver
e se encontram,
perdem-se
se fartam
do mais absurdo alvorecer tão limitado
que me reduz ao boçalizado
caos celeste, adulando-me
como um eterno refém do maldito
meu tempo.
(outubro 2006)

Poema reflexivo

Por vezes sou fera.
Por outras sou víscera.
Escombro em meus versos,
meu calo: silêncio!
Artesão do imaginar,
do pensamento,
poeta e poema
em eclipse íntimo
tão absurdamente lírico
tão calorosamente lúdico.
tão delirantemente lúcido.
Eu me resto nas letras
que cortejam o verbo.
Um verbo na loucura plena,
travando a alma
no desafiante e vão
sentimento.
É a arte de ser a fera.
É a face de ser a víscera.
Enquanto poeta sou vida.
Enquanto poema sou tempo.
(fevereiro 2007)

Requiem


Desejo tua mentira mais linda
encarnada entre dentes e sangue.
Quero teu vigor frio brincando
meus dedos em tormentos pesadelos.
Faço entardecer ventos tal qual
passado devorado em lembrança.
És assim como sombra e algo bruto
arrancando sentidos,
sorrindo meu gesto mais cruel
em vozes roucas,
passos breves.
Tua pele aconchega a agonia de
meu rosto
e assiste engenhosamente o tremor
seco de lábios.
Respiro o delírio infame de teu engano,
ancorando o rancor de lágrimas
em meu vago semblante.
Adormeço tua mentira mais linda
ao repousar rochedo em velhas dunas,
deserto de veleiros solidões,
fascínio de aflitas tempestades.
(dezembro 2009)

Juramento

Eu juro te amar até o fim dos
meus dias.
Colher-te como o mais belo
de todos os frutos.
Abraçar-te na mais fina flor
da fidelidade.
Também eu juro carregar-te
em meus braços.
Enlouquecer-te ao prenúncio
dos meus beijos.
Almejar-te como a mais rica
de todas as coisas.
Mas principalmente te juro
sempre te jurar
com promessas infindáveis
de tudo que direi e não cumprirei
no extremo de meu absurdo covarde
em juras de prestações
com altos juros de hipocrisia.
(abril 2006)

Um soneto para Simone

Meu canto clama por tua presença.
Revelo formas, raios de teu rosto
Onde te percebo em cantos, teu gosto
E faço-te perfeita a toda crença.

Alinho-me a teu prumo em brandura.
Disfarço-me de artifício ao meu ser
Vejo súplica em súplicas, viver
Recitando minha angústia em doçura.

Quero me prender verbo que te abraça
Que cala ao mesmo tempo tua graça
A todo meu sofrer, algum lamento.

Traduzo-te em versos como assim for
Podendo o sol tocar-te, seja o amor
De alguma estrela para o firmamento.
(outubro 2005)

Claustrofobia


Medo enclausurado
ser encurralado
trevas.
Corujas negras
sobrevoam,
enfeitiçam:
escuridão.
Mente assombrada
alma enlouquecida
sombras.
Pecados felizes
atormentam
se lamentam
e as portas se trancam.
Não há janelas
ar não existe
sem vidas
medo.
Os arredores tontos
se confundem: choro
riso pavor tédio
solidão
aflição
tudo se perde
tudo se falta.
Vozes ecoam
- O elevador do prédio pifou.
E segue o mundo
em seu eterno medo do escuro.
(janeiro 2007)

Valsar de pétalas

Campos de sol
nuvens em aconchego.
Um riso bordado feito pétala
risca o vento,
pousa solitário o rosto.
São inquietas mãos devorando
versos e sementes.
São meus jardins que colhem destinos,
tocam suavemente seu aroma:
vago silêncio.
Feito pétala adormecem os olhos
como se cantassem o mundo
e girassois assombram o colorido
branco de um instante
melancólico entre amores,
farto tal sombra de lua.
Feito pétala amanheço teus ombros
restados a mim
da valsa breve contada em lírio,
semblante de encanto,
varrem-se as pétalas recolhidas em si.
Teu outono se aproxima.
Agora serão bordadas
cantigas de estrela.
(março 2010)

Tolerância um


Larguem de mim,
pois que sou re-verso e basta!
Apontem línguas venosas cuspindo
o mundo que velam
e louvem hipócritas.
Suspirem medos fúteis,
intrigas fáceis.
Deixem-me no recolher de suas vistas
e mais nada.
Não quero a piedade farta
dos medíocres,
sequer a carência mórbida
dos fracos.
Quero o semear dos ventos
em meus braços,
um grito só a brotar
dos dedos,
uma esperança aflita que me
recria a cada luta.
Larguem de mim,
pois que sou deserto e basta!
Dono senhor do destino me faço
e ninguém tira seu curso
quando felicidade me espera
(incompleta, incerta)
no cume mais alto de minha
intragável tolerância.
(novembro 2009)

Revelia poética


A poesia é rica, é forte.
Ela se expõe, se esconde.
Se rompe, se constrói.
Se fecha ao tempo,
se rende ao seu contento.
A poesia é mínima, é máxima.
É lógica, sábia, valente.
Ela se prende ao livre arbítrio.
Tem sua própria vontade.
A poesia ri, ela chora.
Ela implora, se prostra.
A poesia é presente, é ausente.
Guarda lembrança, revela esperança.
Com todos, com tudo e por tudo
se faz poesia.
Mas ela não é completa,
tem lá a sua exceção:
a poesia não faz sexo.
(fevereiro 2006)

Nascimento


Ao ventre- fruto de Priscila Maria, que nos trará a bela
nova,e aos Formandos 2009-1 de Letras da UFRJ.
Nascemos verso a cada dia
redesenhados por olhos de pedra.
Herdamos o fino primor do vento
que nos principia o vinho e o ventre.
Nascemos por consequência lágrima
brotada ao sol de flores partidas.
Colhemos gotas de estrelas estampadas
às nossas mãos ornadas em sonho.
Nascemos mundo por nós mesmos
de tal espanto refazendo o brilho.
Sejamos vozes que nos salta a vida,
sejamos ninho que nos toca o céu.
Nascemos verso a cada dia
da melodia acalantando nova aurora
que surge pela eterna brevidade
de uma poesia a nascer
vinho e ventre.
(outubro 2009)

A noite de um mar apaixonado

Azuis, espumas e só...
Eu sou o mar, teu mar,
o mar!
Venero-te mulher-menina,
ao colo de teu ventre,
por teu sumo nas
lágrimas dos teus pêlos:
és o meu Ômega.
De agitado, despedaço-me
na rocha que te sustenta.
Mas quem te deseja sou eu!
Sou eu... o mar!
O leito da lua sorrateira
reflete-se em mim e
contempla a penumbra da noite
por teu mistério. E tu,
tão plena de braços rijos,
carne tenra, alma e Afrodite,
sublimas o maldito vento.
Eu, feito de azuis, espumas
e só, explodo enciumado
em ondas cristais,
esmurrando meu corpo disforme
contra um inerte infinito.
E envolto por teus poros e encanto,
suplico-te em prantos:
- Vem para mim flora-menina!
Esmorece febril em meus enormes braços
e sê eterna comigo para toda
e qualquer imensidão
de minha silenciosa sinfonia.
(dezembro 2006)

Curso de redação eficaz


Faça explodir parágrafos na
fornalha frágil das almas.
Ordenhe o bom uso de
ponto vírgula hífem hímem
rouxinóis devorando o vigor
da alvorada.
Cante as formas verbais segundo
a nossa gravata norma culta.
Empregue o estrondo semântico
das flores.
Argumente o lirismo prático
do tempo.
Respire a letra que precede
o cinzel da linguagem.
E terá às mãos liberdade.

Assim revolto o instinto dos
olhos fúria e verso.
Produto final é a escrita
minha gritada em carne.
Redijo uma encardida poesia
engatilhada no tambor seco
de minha garganta.
(agosto 2009)

Sobre morangos


Feito sob medida para Laís Naufel
A polpa vermelho-vida
desliza o gosto brejeiro em
pequenas sementes de ternura.
Estala suavemente entre os
lábios por estreitos sabores
da beleza em fruto.
É um pedacinho de natureza
fartando-se da vivacidade
dos campos,
entregando-se à delicadeza
das almas,
domando a loucura do tempo
com a harmonia das cores.
Desenha-se morango o sonho
de menina estampado nos
rastros de olhares.
Revela-se morango a doce
acidez ilustrada no ventre da
ingenuidade.
É de morango a delícia escondida
nos segredos das paixões
em orvalho.
A polpa se desfaz no paladar
do vento: em vermelho, em vida,
se recria no corpo do mais
sereno verso do encantamento.
(agosto 2008)

Poema despedida


A despedida tem olhos atentos,
sorriso largo,
ventos correndo pelo corpo
denso e pródigo.
A despedida escorre pelos muros
do destino.
desfaz as leves cores do encantamento,
conforta sonhos distantes.
São minutos intermináveis decorados
em pequenas lágrimas perdidas.
É a despedida que lacuna a
alvorada,
cristaliza o poema da vida
em ausência,
é simplesmente o vício da solidão.
Adeus, até breve... A despedida
assim se faz presente.
Desafia os ponteiros do relógio,
revela a embriaguez do mundo,
é cruel, é notável.
Ah, despedidas...
São suaves passaportes para
uma outra dimensão
que se diz saudade.
(julho 2008)

Poema insólito


De meu corpo sujo

restará o vazio morto
dissolvido em
vertigens frias,
açúcares,
o vício cinza
que rasteja meus dedos
completamente mar
completamente sós.
O tempo consome almas
na porção exata
de constelações turvas.
E desconcerto meu avesso
no silêncio da letra
mais inquieta.
Sou corpo sujo

meu invento frágil,
carne dúbia.
Vazio morto na
loucura lógica
de meus próximos
dias de chuva.
(junho 2010)

O céu em pedaços


O vento em desespero me acorda
covarde, na espera triste da lembrança
esquecida num singelo gesto de coisas.
É o manifesto. É a pressa da vida
como um canto feroz em busca
da minha utopia. Eu sou o céu.
Espedaçado pela crueldade bárbara
do destino.
É o detrimento. O amor em lamento
que me faz pequeno. Eu sou o céu.
Sou o destino. Sou o sangue ácido
que corrói o tempo perdido num
pouco de nada.
É o nada. O vazio de tudo petrificado
por minha insana sensação de ser o céu.
O céu em pedaços. Eu sou o céu.
Eu sou o nada.
(abril 2006)

Sinfonia de Isadora

Enquanto diz o papel,
a mão e o lápis do poeta,
uma vida se recria,
a musa se renova.
Diz a palavra mansa
no ouvido das pedras.
Amansam feras de cera
em busca do céu lírio,
chove a surdez dos homens
na angústia das almas,
uma vida se recria,
a musa se renova.
Uma sinfonia toca o vento,
poesia encara os olhos,
o sonho de menina exala
nos enlaces do mundo.
Parece arder o sussurro
das lágrimas.
Irá fingir o semblante
dos astros.
Um cantar ingênuo evoca
o papel, a mão e o
lápis morno do poeta,
uma vida se recria,
a musa se renova.
E desabrocha o véu tímido
da arte.
(agosto 2009)

A poética das curvas


“Quando uma forma cria beleza, tem na beleza sua própria
justificativa”
- Oscar Niemeyer
É das curvas que se atreve a nudez
límpida da natureza.
Do traço formoso e grato ergue-se
o desenho das almas.
No esboço fino dos olhares vibra
o grito de cada chão.
É nas curvas que se permeia o frescor
da musa e do sonho.
Nas entranhas do universo cabe-se a
exata poética das formas.
Entre homens e certezas, vem a nobreza
compassada da criação.
É pelas curvas que se encontra a brandura
clássica das nuvens.
O vermelho sol renova-se nas arestas
loucas das grandes cidades.
Ao sentido da arte é aguçado o delírio
do belo nas esquinas.
Pois é no contorno cândido do detalhe
que se arquiteta a vida.
(novembro 2007)

Arquétipo de mulher

Mãos pequenas,
versos grandes,
generoso rosto de flor
toca o corpo.
Como se o amor lhe
saltasse ao ventre dos
olhos.
Como se o céu lhe
abrisse o templo das
vozes.
Dobra-se o cuidar sereno
das curvas.
É que lábios feitos de sol
unem-se ao resplandecer
das peles.
Mãos pequenas,
versos grandes
enredam um novo horizonte.
Mulher em doce aroma
encanta estrelas
ao cantar pedaço bruto
de mim.
(julho 2009)

Bocejo

Eu vou deitar.
Em minha preguiça esparramada
Vou deleitar.
E esperar de todos uma esperança programada
Que me faça chorar a chuva pesada e desbotada
E em mim delirar.
No possível da tristeza que não tive
Que do esforço do embaraço de quem vive
Se faz esboço de um palhaço emergente
Assim como a gente
Lavada como aço em detergente.
E então vou pensar
No pesar da consciência viva e pura
Em que andar pela ciência toda escura
É só se espreguiçar...
E na minha preguiça esparramada
Programada e desbotada
Eu vou deitar.
(novembro 2005)

Embate


“crio raízes de temperamento sórdido”
- Julia Pastore
Assombro teus sentidos o acorde
de meus passos.
Em teu ombro o engenhoso
relicário do tempo.
Pelos ouvidos, suave invento
de minha sombra.
Sou assim reverso da tua noite,
a ideia mais incrível nas órbitas
do acaso.
Invado teu café,
tua vida,
cresço tua mente como amor
desenfreado ao amor.
Vertigem seja o corpo residindo
em teu medo.
Loucura faz exausta a ternura
de meu gosto.
Teu grito sussurro,
anoiteço gotas de areia,
Faço mãos pousarem firme
teu conflito meu espaço.
E ainda resta aquela pétala.
Coloco em tua derradeira boca
o perfume arrogante de uma
flor.
(setembro 2008)

O contrabismo


"Pois então abram bem os seu ouvidos
-O mundo somos eu."
João Pedro Fagerlande
Entre as finas cinzas restadas
de meu abismo, fiz-me renovo.
Reergui como ave sem asas,
com mãos em sangue pisado
que adubam meu sonho
na rocha tão tímida.
O eco das paisagens grita meu corpo:
sou universo em plural.
Recolhi as feridas, engoli a
saliva seca e iludida,
e me vi pairando nos vastos
palácios do mundo.
Cantarolei ventos nas pilastras
de eternidade,
regi meus olhos na orquestra
de meus passos
e dormi ao relento que vigora
nos vales de liberdade.
Venço o cansaço na roda do
contrabismo,
na essência do espelho das almas
na estrada de toda esperança,
pois na enormidade de meu tempo,
em cada topo de minha ardilosa
vontade, eu sinto fome:
a fome de um suculento e saboroso
prato chamado vida.
(outubro 2007)

Ópera jimmycharliana

Por vezes sou mar apaixonado.
Por outras véu de meus abismos.
A ausência em mim delira
versos duros
versos rasos
dentro dum bocejo enorme engolindo
o rastro do mundo.
Como vou seguir seguir estrelas
ilusões entre avenidas e cirandas:
minha forma em letra brinda
praças musas sonhos.
Um templo de sol se esconde azul
azul e sombra
ao cantar ingrato não-amor.
Valsam horas confessando o grito.
Rasgam flores cativando o surto.
Céus despedaçados assombram
o embate de curvas,
poética duma vida inteira
recolhida num sofá.
Minhas mãos entre tintas e passarinhos
acolhem almas
e a poesia como vento rima
incrédula a esperança.
Ganha os olhos um desejado
prato de vida,
no primor de fera ou víscera
ser obra rara de minha boca,
meu insano verbo,
meu todo tempo.
(dezembro 2009)